liberdade, conflito, luta, argivai, angola, mundo, universal
Domingo, 3 de Maio de 2009

Aguardando Justiça...


Fonte: http://retornados.home.sapo.pt/
(adaptação e imagem da autoria do blog)

A CHEGADA
Foi num 10 de Junho do ano de 1975
(Dia da Raça ou de Camões, como queiram),
data em que pisaram, pela primeira vez, a terra portuguesa, ficando a traineira Bengo abandonada e triste, apodrecendo num cais de Lagos.
A Capitania recolheu os refugiados.
Foi então que ouviram a nova palavra Retornado,
escrita numa guia, passada pelas autoridades,
para se apresentarem em Lisboa
no IARN [Instituto de Apoio aos Retornados Nacionais]
recém-criado pelo governo português de então,
para Apoio aos refugiados que chegavam, diariamente,
das Ex-colónias portuguesas de África.
Danny chamaram-nos de Retornados?
Quem?
Aquele marinheiro da Capitania, o de boné sebento,
barba por fazer e cravo encarnado no peito da farda!
Esse mesmo!
Sou refugiado e não Retornado dizia-lhe o Malaquias, bastante aborrecido!
Nem sou de cá!
Não nasci em Portugal!
Sou de Angola, de Lobito!
Refugiado e funcionário de Portugal, SIM...
Uma velha camioneta, estacionada debaixo de uma frondosa árvore, ia partir para Lisboa. Entraram. A viatura ainda tinha lugares vagos e iria parar, sucessivamente, na Vila do Bispo, Aljezur, Sines e Alcácer do Sal, antes de rumar para o IARN.
Danny observava a cidade através da janela da velha camioneta,
que largava para o ar uma densa fumarada negra.
Todos os passageiros estavam calados e espantados com o que viam.
Passaram por uma das ruas de Lagos, onde decorria uma manifestação do PC, no meio de bandeiras encarnadas e cartazes:
Mais nenhum soldado mais para África,
Portugal para os portugueses,
África para os africanos
O Malaquias assim falou ao companheiro:Isto está mau, caro amigo, penso que pior que Angola donde saímos, há já algumas semanas...
O motorista da fumegante e velha camioneta, rangendo os dentes, abrandou a marcha e viu-se engolido e forçado a parar junto a uma esplanada, para deixar avançar o desfile, cujos manifestantes entoavam, cedenciadamente, as tais palavras de ordem.:
o povo unido jamais será vencido...
Ao verem a camioneta com as letras do IARN,
os manifestantes e os circunstantes tomaram mais ânimo e desataram aos berros:
Seus colonialistas vão mas é para as vossas terras! Correram connosco de lá e agora vêm tirar os poucos empregos que temos para os nossos filhos...
O motorista, de barba de vários dias, camisa bem suada nos sovacos e boné descaído sobre a testa, animado pelo ruído da rua, foi comentando, enquanto palitava os dentes ainda com bocados do pastel de bacalhau comido na tasca do tio Zé:
Pois é verdade! Já éramos poucos aqui e agora passo os dias a levar esses malandros dos retornados para o IARN, em Lisboa. Para os nossos filhos, os desta terra, nem uma camioneta para irem para as escolas, aqui a dois passos...
Malaquias, mesmo sem querer, entrou na conversa:
Olha, senhor motorista, se vocês tivessem feito uma descolonização “exemplar” e não um simples abandono das colónias ao bicho-homem, nós não estaríamos aqui, agora, entende!
O motorista desviou-se de um caixote de tomates, caído no pavimento, e não deu resposta ao seu interlocutor com a face queimada pelo mar, para bem de todos os passageiros já inquietos com o tom da conversa...
Entretanto, a manifestação política deixara a rua livre e concentrava-se, agora, na Praceta da Revolução, previamente preparada com altifalantes, tribuna de tábuas pregadas e bidons. A camioneta conseguiu seguir viagem pela marginal, com o mar à esquerda e as praias cheias de veraneantes, pois decorria o mês de Junho do ano de 1975.


http://retornados.home.sapo.pt/
autoria dos textos:
ADRIANO DE ALMEIDAGOMINHO
[narrativa 1975-2005]
Jubilado da Aviação Civil, em Portugal
Ex-administrador em Timor,
Estudante do IV ano de Direito, em Lisboa.
==========================================
DESCOLONIZAÇÃO EXEMPLAR
ou GAIVOTAS QUE VOAM
[RETORNADOS DAS EX-COLÓNIAS]
E-BOOK - EDIGOMO
adriano.gominhop@sapo.pt
LISBOA,1999/2005
publicado por ANTITUDO às 01:36
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Quarta-feira, 21 de Março de 2007

O êxodo dos " BRANCOS DE ANGOLA"

O êxodo dos Brancos de Angola- um livro por escrever na primeira pessoa

Por Mandachuva


Mais uma vez o relato de familiares de ex-militares ...neste caso a esposa !

Os outros são como Savimbi escreveu no seu livro "ANGOLA a resistência em busca de uma nova nação”:
pàg 64 - "O êxodo dos brancos desequilibrou profundamente a vida politico-económica de Angola.
Houve quem escrevesse que a maior parte dos brancos residentes em Angola tinhaaderido à UNITA e desertou dela depois de certas afirmações de dirigentes do Partido, nomeadamente o meu discurso de Julho de 1975 no Cuma...//..."
" A UNITA foi o único movimento que tomou posições claras, límpidas, em relação à nacionalidade angolana. Foi ela que manteve(como mantém) a sua posição de que nas circunstãncias do nosso país, angolanos podem ser os pretos, os mestiços e os brancos.
Quinhentos anos de vivência em comum representam alguma coisa. Quinhentos anos de mistura de costumes e de sangue não são pouco.
A UNITA defendeu o ponto de vista da nacionalidade para brancos e mestiços, desde que estes estratos populacionais se identificassem com a construção harmoniosa de uma nova Angola, aceitando entrar na "escola da História" ,para que os pretos, que são a maioria, não vive3ssem constantemente dos seus ressentimentos e os brancos quisessem transpor para uma Angola independente a sua vida de privilégios passados durante a época colonial."...//...
"Foi essa base única que fez com que brancos pretos e mestiços aderissem em massa à filosofia do nosso partido."...//...
"Quanto ao meu discurso no Cuma, ele foi apenas um reflexo da situação que se vivia...//...tinha estado a dialogar comigo certos elementos brancos que se diziam amigos da Unita -o banqueiro espirito Santo e o Eng Fernando Falcão, Pinto Leite e o Eng. corte real, e outros mas com objectivos um pouco diferentes.
O Falcão ia para convencer-me de que a Unita devia capitular diante do MPLA porque ele tinha estado em Luanda e vira aí desembarcar armas electrónicas. outros sustentavam que os únicos brancos que tinham escolhido um Movimento de Libertação se identificavam com o Mpla.. segundo eles, os brancos filiados na UNITA tinham-no feito para procurarem da parte dela protecção para os seus privilégios. Foi por isso que eu quis lembrar aos brancos do Cuma que a Independência exigia de cada um uma dose de sacrifício..."
"E se eu quiser examinar erros cometidos nas áreas da Unita, no Huambo e Lobito, Lubango e Moçamedes fácil me será concluir que as populações pretas, brancas e mestiças não estavam absolutamente nada preparadas para esse encontro fraternal.
“A população branca queria manter os seus privilégios dentro do país independente."
"Os Erros cometidos em Angola resultaram da intransigência de certos elementos, uma vezes negros outras vezes brancos, que não estavam prevenidos de que todo o extremismo gera calamidades e que não aceitavam moderação nas suas reivindicações."
"Retomando a questão do Exodo dos Brancos, quero dizer que, no meu entender, ele não foi ocasionado pela sucessão dos acontecimentos ou pela falta de tempo par a educação das massas. Foi deliberadamente precipitado por Rosa Coutinho, que sabia bem que a única coisa que faltava ao MPLA, nessa altura, para poder aguentar a administração, eram os brancos, que não tinham contudo nenhuma simpatia por aquele movimento.
Por isso Rosa Coutinho fomentou atrocidades contra os brancos, para que eles se precipitassem para os portos e aeroportos e par os seus carros- deixando um vácuo que só o MPLA poderia preencher graças ao envio apressado de lisboa de quadros do partido comunista, para reforçarem a sua posição. Foi essa a razão fundamental do êxodo dos brancos."


Recolhas de Renato G. Pereira
http://www.prof2000.pt/users/secjeste/aidaviegas

EXCERTOS:
Foi o caso duma interessante conversa que Matilde ouviu uma tarde ao entrar num pequeno bar duma vila do centro do país onde, como é habitual, um grupo de homens, costumava juntar-se em amena cavaqueira. No momento a conversa estava animada. Os temas, como as cerejas, iam-se encadeando uns nos outros passando, inexoravelmente na altura, pelos retornados.
Uns queixavam-se disto, outros acusavam-nos daquilo, sendo, porém, todos unânimes na ideia de que os regressados de África estavam a constituir uma praga, tal era o número dos que afluíam dia após dia ao Velho Continente.
— Na realidade, disse um dos presentes à laia de conclusão, daqui a pouco, não se vê mais nada nesta terra senão retornados e cães!
— É verdade, é verdade...
— Você é que tem razão - aplaudiram quase em uníssono todos os presentes.
De repente, alguém reflectiu e, uma voz se levantou do meio do grupo:
— O senhor por acaso não é retornado? Ou é?
— Claro que sou, homem!
— Eu também, exclamou quem falara e, ambos desataram a rir com vontade perante o espanto dos demais que de repente não se haviam apercebido onde estava a piada.
publicado por ANTITUDO às 16:18
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